Playlist de avião.
Lembro que meu primeiro voo assistindo o pôr do sol foi saindo de Porto Alegre, nos meus 10 anos de idade, ouvindo no meu mp4 ‘‘Makes me Wonder’’ do Maroon 5 (sem nem imaginar que o clipe também se passava num voo no fim de tarde) e na minha cabecinha, tudo combinava. Toda a melodia anos 2000 e a voz do Adam com a aeronave decolando com as janelas todas alaranjadas. Ainda lembro do cheiro do perfume que meu pai usava na época quando pegávamos esses voos saindo do Rio Grande do Sul. Era o Blue Jeans, da Versace. Hoje ainda quando sinto, vem automaticamente na minha cabeça: Voo e papai.
E acho que foi com essa memória, que minha alma quis um pouco mais disso. Sempre me mudando de estado, ou indo visitar a família no Rio, aviões eram sempre presentes na nossa rotina. E música também. Meu pai como um bom músico, me ensinou desde cedo a ouvir todos os instrumentos de uma canção e conseguir separar com calma cada um. E o melhor momento para estar completamente presente sentindo uma música com todo o meu ser, era durante essas horas pelo céu.
Cresci e quando fiz 18 anos, eu morava em Maceió. Tentava inventar desculpas pra sempre estar pelo Rio, mas a verdade é que a melhor parte era a hora de embarcar. Sozinha. No início de uma pequena independência pelo menos por uns dias. Foi quando criei a Playlist de Avião. Claro que Makes Me Wonder entraria, e uma boa parte da trilha sonora de Diabo Veste Prada com Jamiroquai. As músicas do filme faziam eu me sentir num voo pra Nova York, mesmo que o destino fosse o Galeão. E City Of Blinding Lights não envelhece e continua emocionante toda vez que aterrizo olhando as luzes da cidade (na primeira vez em São Paulo e em Londres foi surreal).
Lembro também de quando fiz meu primeiro voo internacional, adicionei muito Charlie Puth porque uma vez meu enjoo passou ouvindo a bobinha ‘’Does it Feel’’. E lá fui eu ouvindo 7 horas de Charlie me imaginando em festas por LA na indústria musical. Adoro o refrão e canto com gosto emocionada. Tem gostinho de suco de laranja do aeroporto de Lisboa.
Não foram apenas músicas adicionadas ali de forma aleatória. Todas estão por um motivo. Algumas eu ouvia na época em que fiz o meu primeiro voo de helicóptero pelo Rio e eu quis guardar o momento dessa forma, outras estão por ouvir sem querer no aleatório do spotify enquanto trabalhava e automaticamente me sentir numa poltrona pelos ares - e um frio na barriga que só o barulho das rodinhas das malas e os avisos do aeroporto me proporcionavam. ‘‘Essa música tem gostinho de check-in, quero ouvir lá em cima’’ - Pronto, já ganhava seu lugar na playlist.
Mas parece que, de certa forma, era uma meditação. E até mesmo que eu manifestava uma vida que eu ainda não tinha. Hoje sinto um pouco que muitos pensamentos ouvindo cada detalhe de cada música, em diversos voos diferentes (céus alaranjados ou em tempestades, ou azul escuro estrelado) me fizeram o que eu sou hoje. Inclusive, as músicas foram palco de muitos choros com a cara colada na janela, e que no final delas, acabaram me fazendo tomar decisões que mudaram a minha vida.
Foreign Hands de Georgie Ogilvie me lembra quando percebi que fazer um curso de aeromoça foi apenas pra me levar pra São Paulo e conseguir ver o meu primeiro cenário construído na frente da câmera, e decidi que era publicidade (em inúmeras formas) que eu queria mesmo fazer pro resto da minha vida, e voltei no voo completamente decidida.
Nica Libres At Dusk de Ben Howard (inclusive gosto de ouvir todos os álbuns dele em voo, mas essa é especial). Eu estava num voo de Dublin pra Amsterdam, Pedro dormia numa poltrona longe da minha, e eu estava sozinha. O avião estava sobrevoando a poucos pés acima do mar durante todo o percurso, e pude ver todo aquele oceano que dividia os dois países. Quando vem o refrão super incrível da música, apareceu inesperadamente a cena pra mim do maior parque do mundo de energia eólica, Walney Extension. Atravessei as 102 turbinas chorando sem parar. Me dei conta naquele momento do quanto sou apaixonada pelo caminho, pela travessia, e que talvez sejam ainda mais importantes pra mim do que as próprias chegadas. Talvez seja herança da pequena Duda que olhava todos os detalhes pela janela do carro enquanto papai dirigia horas sem fim por estradas nacionais. Mas sei que mesmo ficando triste por não ter conseguido sair do aeroporto em Dublin, naquele momento fiquei extremamente grata de um voo tão lindo e memorável. E logo depois ainda surgiu a luz dourada incrível que beijou o mar com toda a força, e eu perdi o controle do meu ducto lacrimal ainda na parte dos violinos. A letra dessa música em si não faz sentido nenhum pra mim (exceto pela parte que ele diz ‘‘Door is locked’’ e ‘‘The evacuation procedure’’ que me fazem imaginar que ele escreveu em uma talvez aeronave), mas sei que toda vez que ouço lembro desse voo e meu coração se enche de alegria por 6 majestosos minutos.
Não sei se você vai ouvir a minha playlist e se imaginar em Nova York ou na travessia da Irlanda. Mas espero que depois desse texto consiga ter um relacionamento diferente com músicas e voos. E se já possui, não deixa de criar sua própria lista com músicas que te fazem voar mesmo quando você não está lá em cima.


